O Diabo está nos detalhes

Por José Otero RSS

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Frequentemente escutamos que no mundo das tecnologias da informação e comunicação (TIC) o tempo passa demasiadamente rápido. As mudanças que antes poderiam levar anos e décadas, levam agora apenas poucos meses. Esta aceleração nos níveis de inovação na maioria dos países da América Latina, fornece grandes benefícios, aumenta a produtividade, fomenta a transparência governamental e incrementa as possibilidades de comunicação. 

Porém, a rapidez na adoção de novas tecnologias e o descarte de outras, cada vez mais dificulta o trabalho daquelas organizações que elaboram análises de mercado e que dependem de fontes externas que podem tardar entre 6 e 18 meses para serem compiladas. Se, em junho de 2016 se publica um informe sobre a adoção de banda larga móvel na América Latina com dados de dezembro de 2015, teremos como conclusão que a Argentina e o Peru encontram-se retardados para a adoção deste serviço. Nada mais distante da realidade. 

Os relatórios sobre TIC com dados defasados cumprem um rol muito importante: oferecer um panorama histórico sobre o mercado. Esta informação é valiosa, pois nos permite identificar os pontos de partida e as carências que têm perdurado através dos anos. A distância que provém dos anos, junto à vantagem de conhecer como funcionam as novas tecnologias como ponto de partida para utilizar estas referências históricas no momento de definir políticas públicas, que buscam solucionar os problemas do setor. 

Assim como existem benefícios em conhecer o desenvolvimento histórico das TIC, a ignorância pode levar as pessoas com pouco conhecimento desta indústria a fazer interpretações que possam tomar diversas formas, como por exemplo, criar índices de adoção de uma tecnologia utilizando para uma mesma categoria de dados datas diferentes e, portanto, distorcendo os resultados. 

Não quero ser mal interpretado, considero que estudos como o Dividendos Digitais, publicado pelo Banco Mundial em 2016, oferecem informações muito valiosas que ajudam a compreender o desenvolvimento das TIC. Contudo, ao contrastar suas informações com informações produzidas constantemente por empresas focadas em investigação primária, podemos identificar pontos no relatório que já estão obsoletos. Pessoalmente, me serve conhecer esta variação, pois me leva a explorar e identificar quais razões que lhes foram dadas.

O problema mencionado não é somente do Banco Mundial, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em seu estudo comparativo sobre “Ciência, Tecnologia e Indústria”, publicado em 2015, oferecia o número de empresas inovando por meio das TIC até 2012 ou a porcentagem de indivíduos com doutorados até 2013. 

O Fórum Econômico Mundial (WEF na sigla em inglês), na edição de 2015 de seu relatório global de tecnologias de Informação, nos oferece dados do uso das TIC no número de patentes de 2011, adoção de serviços de telecomunicações de 2013, dados sobre educação de 2012 e o impacto do uso das TIC em entidades de governo de 2013. 

Todos estes estudos nos oferecem dados que nos servem para obter um melhor entendimento da situação das TIC em diversos países. Como ponto de partida para uma pesquisa séria são elementos indispensáveis e que devem ser complementados como fontes primárias para cada uma das linhas de interesse do pesquisador. 

Desafortunadamente, há quem cometa, seja por preguiça ou desconhecimento, um erro de interpretação ao olhar a informação destas entidades como evangelho irrefutável. A inocência chega ao ponto de afirmar que os resultados são produtos de ações políticas específicas, sem ter revisado e considerado que estas ações são posteriores às datas de validade das cifras citadas. 

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José Otero é Diretor da 5G Americas para América Latina e Caribe. Coluna escrita em caráter pessoal.

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